O diretor Felipe Sholl e o elenco de atores e atrizes: Denise Fraga, Karine Teles, Tom Karabachian e Daniel Rangel, estiveram em uma coletiva nesta terça-feira, 4 de julho para divulgar o longa, Fala Comigo.

Fala Comigo conta a história de um jovem de 17 anos, Diogo (Tom Karabachian) que tem um fetiche de ligar para as pacientes de sua mãe que é psicóloga, Clarisse (Denise Fraga). Quando ele liga para Angela (Karine Teles) que acaba de ser abandonada pelo marido, eles se envolvem e se apaixonam. Para que eles continuem juntos eles terão que lutar contra o preconceito da sociedade e das pessoas próximas.

O longa aborda, essa relação polêmica bem como a dificuldade do ser humano em se comunicar. O silêncio é praticamente o tema mais importante na narrativa. O elenco ainda conta com o ator Emílio de Mello que faz o marido de Clarisse e Anita Ferraz, a garotinha que vive a irmã de Diogo, Mariana.

Fala Comigo estreia dia 13 de julho com distribuição da Vitrine Filmes.

Para não infringir nenhuma lei o diretor fez uma pesquisa sobre crime contra menores

Felipe Sholl, diretor, disse que desde 2005 esse projeto já fazia parte de seu curta na escola de roteiro que estudou.

Quanto ao tema pedofilia, no Brasil não existe crime de sexo com menores, o que existe é crime de corrupção de menores, mas sobre isso nossa lei também é muito vaga.

Então no caso de Angela, ela não estaria cometendo nenhum crime pois Diogo tem 17 anos.

Por conta de uma cena do filme onde Diogo e ela tomam uma garrafa de vinho, a justiça diz que é crime dar bebida alcoólica à menores, mas mesmo essa situação a atriz Karine Teles, que tirou risos da imprensa, defendeu sua personagem dizendo que não foi ela que deu, ele que trouxe a bebida.

Quanto ao relacionamento, o diretor disse que o público que assistiu o longa ficou dividido entre achar a relação abusiva e outros torcerem pelos dois.

O título do filme é um pedido ao diálogo

Desde o primeiro tratamento dado ao roteiro, Sholl queria falar sobre o silêncio.

Sholl disse que todos os personagens de um jeito ou de outro querem se comunicar, pedem isso e somente em dois momentos, dois deles chegam a verbalizar a frase tema do filme.

O longa fala sobre e mostra o silêncio. “o filme é sobre a solidão e a falta de comunicação”… diz Sholl.

Antes mesmo de ir para as telas o filme foi chamado de Ao Lado e ele não gostava muito deste título.

Felipe Sholl não se inspirou em nenhuma relação real para construção do casal

A figura de Macron e Brigitte que ganhou notoriedade na mídia e paralelamente muito preconceito, não foi motivo de inspiração para o diretor. Ele na verdade nem sabia disso quando escreveu a história de Angela e Diogo.

Tudo mudou ao longo dos anos desde que Sholl começou a escrever seu roteiro e não deixa de ser até uma feliz coincidência o seu lançamento em uma época que a história real dessas personalidades se parece com a elaborada pelo diretor.

Por conta do machismo que ainda é muito forte em muitas culturas, e no Brasil isso não e diferente, é mais fácil aceitar um homem mais velho com uma mulher mais nova do que o contrário.

O diretor compartilhou algumas informações sobre as primeiras ideias sobre a construção dos personagens individuais de Angela e Diogo.

No primeiro tratamento dado ao roteiro, Angela iria praticar suicídio, pulando da janela quando o telefone toca.

Para a construção do personagem Diogo, o diretor se baseou no filme Felicidade com Philip Seymour Hoffman que era um homem que ligava para mulheres e se masturbava. Então ele resolveu unir as duas coisas e definiu o roteiro.

Denise sobre a história acrescenta: “Você sai do cinema alargada”…diz a atriz. Segundo ela, Felipe nos deixa nesse lugar de reflexão. “O filme não fixa questões, ele deixa você num lugar de reflexão muito interessante para a liberdade”….

…“A vida persegue a arte”…completa ela, na época do lançamento se deparar com esta questão de Macron, é um presente.

A opinião dos atores sobre essa forma de amor pouco convencional

Cada ator deu sua opinião sobre a questão do romance do casal que tem uma forma de amor pouco convencional e que é motivo de muito preconceito.

Denise Fraga disse que quando ela estava gravando o longa, seu filho tinha a idade de Diogo e ela se imaginava vivendo o momento de sua personagem, Clarisse.

Para a atriz, a sua preocupação na época era a namorada quarentona do filho tomar seu lugar como mãe. A diferença de idade não a incomodava como não a incomoda no momento, e o filme só veio tranquiliza-la neste sentido. Ela depois de fazer o longa olhou com olhos ainda mais complacentes a situação como um todo.

A atriz termina dizendo que já existe tanto ódio no mundo que duas pessoas que se amam, e tem idades muito diferentes…isso não tem importância. A pergunta certa a se fazer seria….porque não?

Karine Telles concorda que neste caso a idade é o que menos importa porque é muito relativo. Tem pessoas de 15 anos que já são maduras e tem pessoas de 30 que são imaturas. No caso dos personagens “Eles se descobrem e as complexidades dos dois se combinam muito bem”, diz a atriz. Em um relacionamento você não entra pensando que não vai dar certo. Você torce para o contrário e não existe como você saber se vai durar. No caso de Angela e Diogo, se essa relação está fazendo bem para os dois, deixe rolar. Isso faz com que possamos refletir sobre os nossos preconceitos e se existe amor envolvido, a pessoa é incapaz de cometer um ato violento.

Quanto ao fetiche de Diogo, Karine diz que se o que rapaz faz em sua intimidade causa estranheza, não deveria, porque todo mundo faz algo de estranho.

A atriz chegou a contar um breve momento dela com amigos em um restaurante quando um casal da mesa ao lado estavam se vendo pela primeira vez. Era nítido que era o primeiro encontro e eles o observavam. Quando o casal saiu eles se entreolharam e comentaram que aquilo não iria dar certo e um deles disse: “Porque não? Eu torço por eles”…e isso fez todos refletirem como estavam sendo preconceituosos sobre aquilo. Precisamos nos vigiar.

Tom Karabachian só acrescenta que acha saudável a relação dos dois e não encara isso como um problema. “Retuito tudo que falaram” – diz ele (risos)

Daniel Rangel também não vê problema na relação. Enquanto Clarisse e Marcos estão juntos mas não se dão beme com isso forçam uma relação, Angela e Diogo se amam e querem ficar juntos. Nesse caso, os tabus e preconceitos perdem a narrativa.

Está sobrando comunicação virtual, e faltando comunicação verbal

O diretor disse que hoje nós falamos menos do que no passado e mesmo com essa escassa comunicação verbal, acabamos por não dizer o que realmente queremos.

A falta de diálogo começa dentro da família. Hoje a comunicação virtual é maior.

Quando Clarisse descobre parte da intimidade do filho, eles conversam sobre a possibilidade dele ser gay por causa de um acontecimento que ele viveu e a expressão dela é de alívio pois esse um assunto ela saberia lidar.

Apesar da personagem ser na maior parte do tempo uma pessoa distante e confusa, nessa hora ela se mostra acolhedora e serena.

Diante da descoberta do relacionamento, quem prevalece, a mãe ou a psicóloga?

Quando Sholl começou a escrever o roteiro ele tinha 23 anos, então ele estava mais próximo de Diogo e os consultores do roteiro achavam que faltava uma dose maior de vilã em Clarisse. Na conclusão da história ele se encontrava com 33 anos e sua posição agora era inversa, ele estava mais próximo de Clarisse, então no decorrer do processo, o tratamento dessa personagem mudou muito e no final isso o deixou satisfeito. No confronto de mãe e namorada, prevalece a mãe defendendo a cria.

Denise complementa que sua personagem cria uma situação antagônica porque “ela ataca, mais fica constrangida de atacar”.

No final, o que deixa a história interessante é que as impressões do filme serão diferentes para cada pessoa.

O momento onde a falta de diálogo diz mais do que as palavras

Tom, debutando em Fala Comigo, disse que as expressões e construção dos personagens, os closes são méritos do diretor que também é um grande preparador de elenco.

Karine se acha uma atriz de muita sorte por trabalhar com diretores que também preparam atores. Diferente do teatro, Karine acha que no cinema o ator fica muito vulnerável. Um enquadramento ruim ou uma montagem ruim pode destruir ou salvar o trabalho de um ator. A relação de confiança deste profissional no diretor é essencial para que o objetivo seja o melhor possível.

Sholl deixou os atores seguros e tranquilos para dar tudo em cena.

Nas cenas de sexo não importava o explicito do ato e sim criar a atmosfera para o público entender as expressões dos atores e essa linguagem facial.

Tom complementa que o diretor deixava os atores tão tranquilos no set que não existia o trivial ‘1, 2, 3 e…gravando’….Sholl começava a gravar com a frase “quando você quiser”. “É o jeito do diretor fazer arte”.

O diretor rebate a fala de Tom dizendo que o maior mérito dele foi escolher o elenco. Isso arrancou riso dos presentes.

Denise abre um aparte dizendo que muitas vezes o silêncio é muito importante. O ator se preocupa com o texto, em decorar o texto e as pausas são muito importantes também.

O consultório de psicanálise dentro de casa

Sholl leu Freud, e é fascinado por psicanálise. A monografia de fim de curso dele foi sobre Freud e o cinema de David Lynch. Seu roteiro foi escrito dentro do consultório de seu psicanalista e ele faz parte dos agradecimentos finais do filme.

Mas ele particularmente não fez uma pesquisa específica para construir Clarisse. A personagem acabou sendo um apanhado de pessoas que ele conhece que resultou em algo instintivo na hora do confronto de seus personagens.

Conhecer alguns psicanalistas que tinham consultório dentro de casa, foi um fator que fez Sholl optar por fazer o mesmo com sua personagem.

Autor Sil Ramalho

Adoro filmes. Não ligo para o gênero, desde que ele seja um bom entretenimento. Foi pensando nisso que resolvi abrir um site e escrever sobre o que acontece neste universo mágico. Aqui no Fila da Pipoca vou falar de tudo um pouco: curiosidades do cinema, alguns posts bem humorados, bastidores, celebridades, enfim...tudo como se fosse uma conversa. Só vai faltar o café, pão de queijo, refrigerante, o que você quiser para sentirmos que estamos juntos, sentados em lugar bem agradável falando sobre o que mais gostamos: Cinema!

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